003 – Tia Dag

Programa: 003

Exibido em: 11 de junho de 2008

Entrevistado: Tia Dag

Dagmar Garroux, a Tia Dag, é fundadora da Casa do Zezinho, uma entidade não governamental sem fins lucrativos, localizada na zona Sul de São Paulo.

Fundada em 06 de março de 1994, para ser um espaço de atuação para crianças e jovens de baixa renda, começou com 12 Zezinhos e atende atualmente 1200 crianças e adolescentes de baixa renda, entre 6 e 21 anos, moradores dos bairros próximos, que freqüentam 67 escolas públicas da região.

O projeto possui sede própria com área construída de 2900 m2, dividida em espaços de aprendizagem, oficinas e ateliês de arte, quadras poliesportivas, piscina, refeitório, padaria, cabeleireiro, auditório, ambulatório médico, consultório dentário e horta.

Participação: Ferrah

O melhor espelho é o outro

Matéria publicada na TPM 50

Junto com o marido, ela comprou a casa onde sonhava viver. Na época, a zona sul de São Paulo parecia um refúgio com todas as qualidades que hoje são anunciadas pelos condomínios fechados. Perto do centro, com a calma e a paz do campo, o horizonte ao alcance dos olhos e o futuro desenhado na paisagem. Só não havia um detalhe, exatamente aquele mais alardeado nos tais anúncios: segurança. É que há cerca de 15 anos, apesar da aparência ainda relativamente tranqüila e limpa, as primeiras áreas da zona sul de São Paulo começavam a ser invadidas pelas famílias que não se encaixavam na cidade, expulsas pela engrenagem e pela cada vez mais míope gestão pública.

Em vez de colocar a casa à venda e buscar um refúgio com grades altas, como talvez você e eu tivéssemos feito, a paulistana Dagmar Garroux, aos 36 anos, teve aquela que talvez tenha sido a melhor idéia de sua vida. Resolveu, com seus próprios recursos, transformar a casa que havia comprado numa espécie de centro de educação, diversão e cultura – hoje chamado Casa do Zezinho – dedicado às crianças da região, a mesma que algum tempo depois seria classificada por organismos internacionais como uma das mais violentas do mundo, o Capão Redondo e seus arredores. Hoje, a casa de Dagmar é um local cercado por 60 favelas e habitado por 1,5 milhão de habitantes.

Garota criada com conforto em São Paulo, pedagoga por formação, discípula de Paulo Freire, um dos maiores educadores de todos os tempos, e já àquela altura com larga experiência em atender crianças e jovens com problemas, Dagmar, com o apoio do marido, o artista plástico Saulo Garroux, transformou sua idéia em uma das mais bem-sucedidas experiências de educação e amor a quem não tem nem um nem outro deste país. Na entrevista que segue, você conhecerá os infinitos obstáculos, a visão de mundo e a maravilhosa remuneração que Tia Dag, como é chamada pelas 1200 crianças que atende, amealhou ao longo de muitos anos de dedicação incondicional distribuída indistintamente a traficantes, bebês de colo, mães adolescentes, rappers, ex-presidiários, banqueiros e empresários.

Vaidade para ela é a busca por educação. Ao contrário do ordinário, Dagmar deposita seu olhar no outro, e não no espelho.

Por que um dia você quis morar aqui?
Por que era uma ruinha de terra, legal… Isso em 1988. Comprei a casa e, de repente, percebi que estava entrando em um campo minado, uma região que estava sendo invadida por comunidades carentes.

Você se deparou com bandidos, traficantes, foi isso?

Não! Quer saber com quem eu tive problemas depois que decidi fazer a Casa do Zezinho? Com os moradores da rua. Eles começaram a me denunciar, falar que eu ia fazer uma Febem. Teve denúncia de formação de quadrilha, a polícia invadia e aí o pau quebrava.

E você tinha alguma experiência em área social?

Aos 14 anos, fui estagiária do Juizado de Menores, a Febem da época. Tinha muita tortura, eu denunciava e os generais me ameaçavam.

Como você decidiu fundar a Casa do Zezinho?

Desisti de morar na casa, juntei cinco amigas da USP e começamos. Cinco malucas [risos]. Até hoje todas estão na Casa do Zezinho.

Qual foi a cena mais punk de violência que você viu?
Foi uma família. O irmão estava no tráfico, ficou devendo e deu no pé… Os caras estupraram a mãe, quatro meninas, tudo assim: 8, 9, 10, 11 anos. Aí amarraram a mãe e mataram as quatro na frente dela. A outra violência que eu vejo é todo ano em janeiro: a enchente. Quatro crianças morreram este ano, porque o barraco estava dentro do córrego. A água subiu, as quatro presas dentro, trancadas, morreram todas.

Tem uma hierarquia dentro da favela?

Tem as três classes. Classe A é quem tem alvenaria e dois andares. Classe B é quem tem laje. E classe C, que eles chamam de derrotados, é quem mora perto do rio e tem madeira.

Tem assalto dentro da favela?
Não. Assaltou morreu, filho.

Como a Casa do Zezinho se sustenta?
Hoje com parcerias, iniciativas privadas, empresas, pessoas físicas, são associados. Claro que a gente está sempre no vermelho, óbvio. Com uma maluca desta na direção [risos].

E as mulheres na favela, como são tratadas?
Lixo, capacho. Hoje em dia a favela tem mais a avó materna. A mãe tá sumindo porque trabalha, fica fora o dia todo. O pai então… Não tem valor familiar. As meninas sabem como evitar gravidez, mas não evitam porque querem uma família, é o projeto de vida delas.

E os filhos?
O primeiro lugar que essa criança vai é a escola, o seu primeiro valor social. E a professora ganha mal. O que você está querendo dessa criança? Eu não ponho a mão na cabeça de bandido, mas o buraco é muito mais embaixo. Grandes bandidos são o Maluf, Marcos Valério… Se quem tem dinheiro e poder investisse em educação, em coisas básicas para a formação desses meninos, tenho certeza de que a coisa seria diferente… Até esse molequinho que matou meu pai, matou para comprar droga.

Como foi isso?
Quando eu tinha uns 60 Zezinhos, aluguei um sítio em Itapecerica da Serra. Era legal porque levava eles no fim de semana para lá. Minha mãe já tinha morrido e meu pai morava no sítio comigo, meu marido e meu filho. Um dia, eu estava na Casa do Zezinho e recebi um telefonema: “Olha, acabaram de matar seu pai”. Aí balancei. Foi um menino que entrou para roubar e comprar drogas e meu pai reagiu e levou três tiros. Saímos do sítio, o menino foi preso e fiquei um mês afastada da Casa do Zezinho, me questionando. Até que uma criança me ligou: “Tia Dag, você está muito triste?”. “Tô, né? Meu pai morreu.” E ela falou: “Tudo bem, a gente manda matar”. Eu falei que não e me deu um insight: meu pai morreu defendendo o que ele acreditava, que era a família. Ele morreu em pé, eu também vou morrer em pé. Quando voltei parecia um trator morro abaixo. Me deu uma força enorme.

Você conheceu esse menino?
[Nega com a cabeça.]

E o futuro desse povo?
O futuro é agora. Tira os sonhos pra ver se você vive. Eu tenho os meus. Multiplicar a Casa do Zezinho, ter Casa do Zezinho no Brasil inteiro. Eu quero ir pra África, eu ainda tenho muitos sonhos, muitos.

De onde vem o nome Casa do Zezinho?
De Carlos Drummond de Andrade, de “E agora, José?”. Naquela época foi uma poesia muito forte. Porque brasileiro tem essa mania de Zé Mané, Zé Ninguém… Pera aí! Vamos fazer “E agora, José!” com ponto de exclamação. Começamos com uns 12 Zezinhos…

Você chama todo mundo de Zezinho?
Todo mundo é Zezinho, eu sou Zezinho… Virou uma filosofia. Ser Zezinho indica valores, conquistas, sonhar, respeito, comprometimento. A Casa do Zezinho não nasceu de um assistencialismo barato ou palavras que eu não suporto, como caridade, solidariedade. E sim pelo princípio do desenvolvimento humano, e dentro disso existem milhares de maneiras e ferramentas que a gente vai construindo junto com os Zezinhos.

Como é a dinâmica na Casa?
Pra começar, não tenho sala de aula, tenho espaço de aprendizagem. Cada grupo tem seu horário e grade, grupo A vai estar na padaria, grupo B no cabeleireiro, grupo C na informática, D, na aula de inglês.

Como assim padaria, cabeleireiro…?
Eu tenho 17 oficinas lá dentro. Tem estúdio de som, eles aprendem as técnicas, gravam CD. Já tenho Zezinho trabalhando em rádio, 40 Zezinhos na faculdade, Zezinho associado, trabalhando em multinacional, educador da Casa do Zezinho. E no fim de semana a casa é um pólo cultural, levo shows, teatro, cinema…

Qual o grande problema aqui?

Olha, primeiro chama casa, não chama escola. Então é uma casa onde eles vão aprender e nós também. Veja o problema da prostituição. Com 10 anos já começa. Conheci uma menina dessa idade e fui falar com ela: “Você tá se prostituindo no Santo Antônio?”. “Tô, por quê?” “Quanto você ganha?” “Dez real. Por que, Tia Dag, você nunca pensou em ser puta não?”. Nessa hora, se eu viesse com um discurso moral, perdia essa menina. Então falei: “Olha, é o seguinte, eu nunca pensei, mas se eu fosse pensar ia ser puta em Brasília”. Olhei pra cima e pensei: “Me perdoe a pedagogia, dane-se o mundo”. Ela disse: “Puta em Brasília, o que que é isso?”. “Ah minha filha, puta em Brasília deve ser 3 mil por transa, mais um apartamento, mas você tem que falar duas línguas, ter duas faculdades, um corpo sarado… então, se te interessar, me procura. E virei as costas. Amargurada, angustiada, mas o que eu ia fazer? Três dias depois ela me procurou. “Tia Dag, quero ser puta em Brasília.” Você sabe o que essa menina é hoje? Último ano de odontologia. Quando nós duas conversamos a gente lembra dessa história, cara, é muito bom.

Isso é educar?
Educar, cara, é atrair, é seduzir, você só educa se você seduz. Esse é o princípio de educação mais básico que tem. É sedução. A partir da sedução é intervenção. Deu a intervenção é transformação. Isso é educação. O que que acontece? Os grupos se formam em gueto, então eu sou esse gueto da zona sul, eu sou gueto da zona leste, se cruzam e se matam. Perpetuam essa bendita história; por que um grupo de rap famoso não vai lá no governo se eles têm força pra isso? Por que eles, que têm força pra isso e mais, não vão lá e dizem: “Escuta, cadê meu cinema? Cadê meu hospital? Cadê meu posto de saúde? Cadê não sei o quê? Pera aí que eu vou botar na minha música e nós vamos falar pro mundo”? A mídia funciona, a única coisa que funciona neste país é mídia.

Você acha que dá pra pensar numa rede das ONGs, numa espécie de conexão entre todas?

É um sonho que eu tenho há cinco anos. Mas elas não conseguem se comunicar. Porque tem ONG que está muito aquém. O que acontece com as ONGs hoje é que elas estão bebendo tudo da mesma fonte. Que sentido faz eu colocar a criança numa marcenaria, que eu tenho aqui, para ficar fazendo chaveirinho, 5000 chaveirinhos, o que vai acrescentar? Porque é uma produção e vai vender. E ele vai ganhar um tanto em cima da produção. Ele ganha mais assaltando, ou puxando carro, sei lá. Ou fazendo nada também, ele pode ter esse direito. Não é? Aqui tudo o que é vendido, quem faz são os oficineiros. A meta hoje na Casa do Zezinho é faculdade. Todos querem ir pra faculdade. Há dez anos eles não tinham esse sonho. E eu juntei tudo, de Zezinho a mãe de Zezinho.

E como é o trabalho com as mães?
O Zezinho é que traz: “Minha mãe quer entrar num curso de informática”. Se a mãe quiser ela tem que ser apresentada pelo filho. E aí trata-se de uma briga maior. Muito maior, porque os problemas e traumas são muito mais enraizados. Então quebrar esses vínculos é muito difícil. Em primeiro lugar muitas delas estão alcoolizadas. Você tem que resgatar também a auto-estima, o que é mais importante, né, a identidade. Se você não tiver identidade, cara, você não faz nada.

Como sensibilizar o empresário?
Olha, me desculpa a franqueza, mas as camadas mais ricas só estão se mexendo agora porque a água tá batendo na bunda, entendeu? Tão com medo de ser assaltadas, seqüestradas, filhos roubados. Por isso tá todo mundo começando a acordar. Porque até então tava muito bom. Quando os pobrinhos estavam quietos, tava tudo bem: “Fica quieto aí, seu pobre, não se mexe!”. Só que agora os pobres estão se mexendo, meu amigo. E de forma violenta e organizada. É isso que a sociedade não percebeu.

Você é vaidosa?
Os meninos falam assim: “Tia Dag, por que você nunca está na moda?”. E eu falo: “Pera aí, o que é moda? Eu sou eu, tenho um estilo”. E eles: “É mesmo, né? Você é forte”. Eu nunca me pintei, nunca fiz a unha, não passo creme. Não uso jóias, salto alto, saia. Gosto de perfume, claro. E tinjo o cabelo para não ficar com a cabeça toda branca, mas não mudo a cor. Minha grande vaidade é essa busca por uma pedagogia de educação.

Como é a sua remuneração?
Minha remuneração é um aviãozinho, uma pomba de lata, coisas que as crianças fazem para mim. É todo o afeto, o sonhar juntos.

O que você gostaria de comprar?
Material de construção para fazer um galpão na Casa do Zezinho. Quero comprar todos os softwares modernos para pôr lá… Quero mais skypes, porque só tenho quatro ou cinco aqui.

Você tem alguma esperança no Estado?
Bolsa-família, bolsa-escola, bolsa-leite, bolsa-não-sei-o-quê. Uma mãe chegou pra mim: “Aí, eu ganhei um vale-transporte, bolsa-transporte, sei lá o que, pro meu filho estudar no Valo Velho”. Eu: “Caramba, o Valo Velho é a oito quilômetros daqui! A senhora tá contente porque ganhou um vale-transporte?”. E ela: “É claro! Ele vai estudar lá no Valo Velho”. E eu insisti: “A senhora tem é que brigar por escola perto da sua casa”. Sabe qual é a renda mínima aqui? Quanto é a nossa média? De 25 reais a 70 reais por mês. Quem é que vive com 70 reais por mês, cara?

Tia Dag falou muito mais. Aqui, alguns trechos:

002 – Lourenço Mutarelli

Programa: 002

Exibido em: 28 de maio de 2008

Entrevistado: Lourenço Mutarelli

Escritor e um dos principais desenhista de histórias em quadrinhos underground no Brasil, iniciou sua produção por meio dos fanzines Over-12 e Solúvel, na década de 80. Recebeu vários prêmios e é aclamado por sua participação no cinema e teatro. Criou a arte do filme “Nina”, dirigido por Heitor Dhalia, e escreveu o romance “O Cheiro do Ralo”, adaptado para o cinema e estrelado por Selton Mello. Recentemente, seu romance “O Natimorto” foi adaptado para o teatro pelo dramaturgo Mário Bortolotto.

Atualmente tem 9 livros de quadrinhos publicados e 4 romances.

Participação: Saldanha



 

 

 

 

Lourenço Mutarelli lançou nessa terça, dia 23 de julho de 2008, seu novo livro ”A Arte de Produzir Efeito Sem Causa”, em São Paulo. A obra conta a história de um homem que aos 43 anos volta para a casa do pai, depois de abandonar o emprego e o casamento. Lá, se vê arrastado por um vazio existencial que o faz transitar entre a sanidade e a loucura.

Esse é seu 4º romance. O primeiro, lançado em 2002, é o aclamado “O Cheiro do Ralo”.

001 – Chico César

Programa: 001

Exibido em: 07 de maio de 2008

Entrevistado: Chico César

Um dos principais músicos brasileiros, Chico César tem 8 discos lançados.

Em 2003, criou seu próprio selo o “Chita Discos”, que lançou duas trilhas sonoras compostas por Chico César para as peças infantis “Marias do Brasil” e “Amídalas”.

Em 2006 estreou como escritor com o livro Cantáteis – Cantos elegíacos de amozade.

Participação: Ylsão – Negredo

Extras que não estão na versão final:

Trechos do livro: “Cantáteis – Cantos elegíacos de amozade”

11 é a musa que elejo

na peleja em que pelejo

elemento de elegia

quentura na noite fria

vento brando em dia quente

¿quanto ganha um gerente

para perguntar seu nome?

quero ver se você some

quero embalar sua rede

tarde cedo seda sede

frame trama tremor fome

12 zaratustra zoroastro

a barba de fidel castro

as ruas de joão pessoa

alma caridosa e boa

sou eu lhe chamando, escute

venha, traga o vermute

que irriga o paraíso

quebre o espelho de narciso

meu gibão, minha couraça

venha iluminar a praça

cale o choro, rasgue o riso

13 a luz da eletricidade

não brilha nem a metade

da briluz que é seu brilho

mãe iluminando filho

ato falho espantalho

coelho macaco galho

todo bicho da floresta

gesto certeiro na gesta

parideira de poema

ouvi o canto da ema

era você: aquelesta


Interferência no ar!

Está no ar o site do Interferência.

Logo mais estarão aqui as entrevistas apresentadas dentro do programa Manos e Minas, com fotos, extras, comentários e muito mais.

Fique ligado!

.: Programas :.


036 – Laerte

035 – Mano Reco

034 – Edvaldo Santana

033 – Kendi Sakamoto

032 – Prof. Pablo

031 – Marcelino Freire

030 – Juca Kfouri

029 – Afro X

028 – Hamilton Tadeu

027 – Paulo Lins

026 – Sergio Vaz

025 – Antonio Nóbrega

024 – Albertina Duarte

023 – Moysés

022 – Caco Galhardo

021 – André Pirovani

020 – Contardo Calligaris

019 – Cazé Peçanha

018 – Ugo Giorgetti

017 – Remix

016 – Eduardo

015 – Glauco Mattoso

014 – Beto Brant

013 – Alzira E

012 – Xico Sá

011 – Laís Bodanzky

010 – Arnaldo Antunes

009 – DJ Hum

008 – Clemente

007 – Pedro A. Sanches

006 – Negra Li

005 – Fernando Bonassi

004 – Hugo Possolo

003 – Tia Dag

002 – Lourenço Mutarelli

001 – Chico César