Programa: 006

Exibido em: 24 de julho de 2008

Entrevistado: Negra Li

Negra Li, nome artístico de Liliane de Carvalho, é uma cantora de rap. O gosto pela música surgiu na infância, quando cantava os hinos evangélicos da igreja. Ainda adolescente, Li imitava Whitney Houston e dali em diante começou a ouvir cada vez mais black music até que, aos 16 anos, passou a se interessar pelo rap.

Iniciou seu trabalho com o grupo de rap RZO, e manteve durante bom tempo uma parceria com o rapper Helião.

Atualmente segue carreira solo e já tem dois discos lançados, além da participação no longa-metragem “Antônia”.

Participação: Tia Ray

Entrevista na íntegra:

Sou negra e me amo

“Sou mulher, negra, pobre e canto rap. Poderia ser vítima de todo tipo de preconceito não fosse por um detalhe: eu me respeito, por isso as pessoas me respeitam. Minha mãe sempre se orgulhou da nossa cor, nunca teve vergonha da nossa condição social – e, claro, acabou ensinando a mim e a meus quatro irmãos a ter autoconfiança. Cresci me achando bonita, gostando do meu corpo, do meu cabelo sem chapinha. Além disso, ela, que é professora, sábia, nos deu a melhor educação possível. E informação é uma arma contra a ignorância da discriminação, certo? Acreditei desde cedo que podia fazer o que desse na telha. Queria cursar teatro; minha mãe me inscreveu numa escola. Você vai ver o resultado no filme Antônia, sobre um grupo de rap feminino. É maravilhoso atuar, mas nada se compara à energia de subir no palco. Dos hinos na igreja evangélica, religião da minha família, caí no rap participando dos shows e CDs do RZO [Rapaziada da Zona Oeste]. Um amigo me convidou, quando eu tinha 16 anos, e aceitei de cara porque amo cantar. Era um tipo de música dominado por homens. Então, me posicionava: não distribuía sorrisos a qualquer um e me vestia como eles, calça larga, tênis… para me preservar naquele início de carreira.
De lá pra cá, soltei a voz na música Não É Sério, do Charlie Brown Jr., um pessoal muito querido que impulsionou minha carreira. Também gravei o CD Guerreiro, Guerreira, com o rapper Helião; estive na festa dos 40 anos da Globo; no programa do Faustão… Nem por isso me deslumbrei com o sucesso. Mesmo se fosse uma desconhecida, seria uma estrela no meu mundo. Porque aprendi a ser feliz com o que sou. O triste é que auto-realização é confundida com prepotência. Já ouvi: ‘A Negra Li está metida, é outra pessoa’. Preconceito! Só porque agora me visto melhor e falo corretamente não quer dizer que não tenha humildade. É preciso evoluir! Lembro que, em 2000, quando entrei para o Coral da Universidade de São Paulo, carregava nas gírias. Convivendo com o grupo, comecei a me expressar melhor. E quero aprender mais. Médico não estuda? Eu faço aulas de canto e piano.
Preconceito contra alguma coisa ou alguém, eu? Não perco meu tempo. Saiu numa entrevista que odeio axé. Por causa disso, os que gostam até criaram comunidade no Orkut contra mim. Calma, gente! Primeiro, músico não detesta música. Disse apenas que era o que eu menos ouvia. Segundo, o problema é mais embaixo. Não curto letras que influenciam as crianças de um jeito negativo. Acho triste ver uma garotinha cantando algo apelativo ou violento, de qualquer ritmo. Tanto que meu rap passa mensagem otimista, de paz. Chega a ser romântico, porque acredito no amor. Mas cada artista deve batalhar por seus sonhos; o meu é gravar CD solo. Não dá para dizer que fulano é melhor ou pior por ser diferente. Como o ser humano pode julgar tanto? Todo preconceito é burro e faz mais mal a quem tem do que a quem sofre. Se você é vítima disso por causa da sua cor, do seu peso, do seu jeito de pensar, fique firme. Ame-se, sonhe alto e não se intimide diante de nada nem ninguém. Seja uma estrela no seu mundo.”

Artigo publicado na edição 384 da revista “Nova”.

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