012 – Xico Sá
Programa: 012
Exibido em: 15 de outubro de 2008
Entrevistado: Xico Sá
Jornalista e escritor, nasceu no Cariri, foi criado no Recife e vive atualmente em São Paulo. É colunista da Folha de S.Paulo e escreve para as revistas Trip e TPM, entre outras. Na música, foi baterista do grupo Anjos de Klee (Recife) e tem várias parcerias com o Mundo Livre S/A, banda do mangue beat pernambucano.
No cinema, foi co-roteirista do filme Deserto Feliz (2007), de Paulo Caldas.
Boêmio convicto, Xico Sá é dono de um estilo cáustico e bem-humorado, que pode ser observado nas crônicas de seu blog, O carapuceiro, ou nos debates futebolísticos do programa Cartão Verde, da TV Cultura.
Modos de macho & Modinhas de fêmea
Divina comédia da fama
Nova geografia da fome
Paixão Roxa
Do Catecismo de devoções, intimidades & pornografias
Se um cão vadio aos pés de uma mulher-abismo
Caballeros Solitarios Rumo ao Sol Poente
EXERCÍCIOS DE PONTUAÇÃO AMOROSA
(Texto publicado no blog O Carapuceiro em 12/09/2008)
Sim, homem é frouxo, só usa vírgula, no máximo um ponto e virgula; jamais um ponto final.
Sim, o amor acaba, como sentenciou a mais bela das crônicas de Paulo Mendes Campos: “Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar…”
Acaba, mas só as mulheres têm a coragem de pingar o ponto da caneta-tinteiro do amor. E pronto. Às vezes com três exclamações, como nas manchetes sangrentas de antigamente.
Sem reticências…
Mesmo, em algumas ocasiões, contra a vontade. Sábias, sabem que não faz sentido prorrogação, os pênaltis, deixar o destino decidir na morte súbita.
O homem até cria motivos a mais para que a mulher diga basta, chega, é o fim!!!
O macho pode até sair para comprar cigarro na esquina e nunca mais voltar. E sair por ai dando baforadas aflitas no king-size do abandono, no Continental sem filtro da covardia e do desamor.
Mulher se acaba, mas diz na lata, sem mané-metáforas.
Melhor mesmo para os dois lados, é que haja o maior barraco. Um quebra-quebra miserável, celular contra a parede, controle remoto no teto, óculos na maré, acusações mútuas, o diabo-a-quatro, barraqueiros corazones.
O amor, se é amor, não se acaba de forma civilizada.
Nem no Crato… nem na Suécia.
Se ama de verdade, nem o mais frio dos esquimós consegue escrever o “the end” sem uma quebradeira monstruosa.
Fim de amor sem baixarias é o atestado, com reconhecimento de firma e carimbo do cartório, de que o amor ali não mais estava.
O mais frio, o mais “cool” dos ingleses estrebucha e fura o disco dos Smiths, I Am Human, sim, demasiadamente humano esse barraco sem fim.
O que não pode é sair por ai assobiando, camisa aberta, relax, chutando as tampinhas da indiferença para dentro dos bueiros das calçadas e do tempo.
O fim do amor exige uma viuvez, um luto, não pode simplesmente pular o muro do reino da Carençolândia para exilar-se, com mala e cuia, com a primeira criatura ou com o primeiro traste que aparece pela frente.
E vamos ficando por aqui, pois já derrapei na curva da auto-ajuda como uma Kombi velha na Serra do Mar… e já já descambarei, eu me conheço, para o mundo picareta de Paulo Coelho. Vade retro.
