Um dos principais quadrinistas brasileiros, estudou comunicações e música na Universidade de São Paulo, porém não se formou nestes cursos.
Começou profissionalmente desenhando o personagem Leão para a revista Sibila em 1970. Durante a década de 70 ele ainda fundou, junto com Luiz Gê a revista Balão e trabalhou nas revistas Banas e Placar. Em 1974 faz seu primeiro trabalho para um jornal, a Gazeta Mercantil.
No mesmo ano começou a produzir material de campanha para o MDB durante as eleições. No ano seguinte trabalhou na produção de cartões de solidariedade no movimento de auxílio aos presos políticos. Em 1978 desenhou histórias do personagem João Ferrador para a publicação do sindicato dos metalúrgicos de São Bernardo do Campo.
No fim da década de 80 publicou tiras e histórias em quadrinhos nas revistas Chiclete com Banana (editada por Angeli), Geraldão (editada por Glauco) e Circo, todas da Editora Circo, que mais tarde lançaria sua própria revista (Piratas do Tietê).
Em 1991 a Folha de São Paulo começou a publicar as tiras de Piratas do Tietê. Seus personagens mais conhecidos são Overman, Deus, Piratas do Tietê, Hugo, Gato e Gata e Suriá.
Suas tiras, que são publicadas até hoje, passaram por uma interessante transformação nos últimos anos: Laerte deixa de criar personagens e passa a desenhar quadrinhos mais “conceitual” e reflexivos.
Em conjunto com Angeli e Glauco (e mais tarde Adão Iturrusgarai) desenhou as tiras de Los Três Amigos.
Laerte também atuou como roteirista, tendo colaborado em diversos programas da Globo como TV Pirata, Sai de Baixo, Fantástico e TV Colosso.
Nascido Denison Vertelo, Mano Reco é rapper e já foi membro do Detentos do Rap.
Conheceu o grupo por meio de uma amiga que visitava o Carandiru e chegou a gravar 7 fonogramas, sendo o mais famoso “Quebrando as algemas do preconceito”.
Em 2005, Reco fez um curso de Teologia, para escrever coisas novas para os Detentos do Rap e em 2006 a partir daí converteu-se e passou a seguir carreira solo, como rapper gospel.
Antes de ser conhecido pelo seu trabalho, atuou como DJ e vocal.
Nascido e criado em São Miguel Paulista, periferia de São Paulo, Edvaldo Santana tocou seus primeiros acordes no velho violão do pai, no final da década de 60. Já naquela época tinha um vasto leque de influências como Jackson do Pandeiro, Torquato Neto e Hendrix.
A partir daí, Edvaldo participa de vários festivais estudantis e cria seu primeiro grupo, o Caaxió. Em meados da década de 70, o grupo consegue um contrato com a gravadora Top-Tap que impõe a condição de substituírem o nome do grupo que passa a chamar-se Matéria Prima.
Um ano antes da gravação do primeiro disco do Matéria Prima, Edvaldo conhece Tom Zé que os convida para acompanhá-lo em alguns shows. O músico destaca esta fase de convivência com Tom Zé como muito importante para sua formação.
Com o fim da banda em 1986, sai em carreira solo e desde então vem realizando parcerias com artistas como Ademir Assunção, Haroldo de Campos e Arnaldo Antunes, Osvaldinho do Acordeon, Fernando Deluque, Bocato dentre outros.
Nascido em Monte Alto, interior de São Paulo é um dos maiores colecionadores de gibi do Brasil.
Tomou gosto pela coisa aos 4 anos de idade, vendo seu mais velho trocava gibis com os amigos. Embora não soubesse ler ficava maravilhado com os detalhes bem feitos de Wall Disney.
Quando mudou-se do interior para São Paulo, teve a chance de conhecer obras produzidas desde a década de 1930. A partir daí, não parou mais de aprender e procurar historias em quadrinhos. Seus gostos pessoais são: Tarzan, Reis dos faroeste, Disney, Gene Autry, Antar, Fantasma, Manarake, Cavaleiro Negro, Flecha ligeira, Edição maravilhosa e Cinemim entre outros.
Rapper, professor de física e mestrando em Energia Nuclear, atualmente está produzindo do seu terceiro disco, onde pretende mostrar toda a sua evolução com rapper e com pessoa.
Começou a divulgar seu trabalho em 2002, quando lançou seu primeiro disco pelo selo 7 Taças. O álbum lhe rendeu a indicação o Melhor Álbum de Rap do Ano no Prêmio Hutus.
Em 2003 foi novamente um dos indicados na mesma premiação, desta vez na categoria Personalidade do Ano. Ainda nesse ano, dentro do Prêmio Hutus, se apresentou ao lado de grandes nomes do Rap brasileiro, como MV Bill e Racionais MCs e também ao lado do grupo mais polêmico e contestador da história do Rap mundial, o Public Enemy.
Nascido na cidade de Sertânia, alto sertão de Pernambuco, Marcelino Freire é escritor, criador e curador de vários eventos literários e blogueiro convicto.
Alguns de seus contos foram adaptados para teatro, TV e para o cinema. Além disso, foram publicados em revistas e jornais no México, França, Estados Unidos e Itália.
Editou, ao lado de Nelson de Oliveira, a revista de prosa “PS:SP”, lançada, em número único, no ano de 2003 e participou de antologias nacionais como “Geração 90 – Manuscritos de Computador” (2001) e “Os Transgressores” (2003) e antologias internacionais, como a “Putas”, lançada em Portugal (2002) e “Terriblemente Felices”, lançada na Argentina (2007).
Em 2004, idealizou e organizou a antologia “Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século”, reunindo 100 autores, como Dalton Trevisan, Millôr Fernandes, Marçal Aquino, Raimundo Carrero, João Gilberto Noll, em microcontos inéditos de até 50 letras. Ainda em 2004, foi responsável pela “Série Paralelepípedos”, em que autores de cada uma das 27 capitais brasileiras apresentam, para o público infantil e adolescente, a cidade em que nasceram ou onde vivem.
Em 2006 ganhou o prêmio Jabuti de Literatura pela obra “Contos Negreiros.”
Sabe o Homem que encontraram no gelo? Encontraram no gelo da Prússia? Enrolado? Os arqueólogos encontraram no gelo gelado da Prússia? Perto das colinas calcáreas da Prússia? O Homem feito um feto gelado, com sua vara de pesca? Sabe o Homem que encontraram? Com seu machado de pedra? O Homem que tinha cabeleira intacta? A arcada dentária? O Homem meio macaco? Funerário? Fossilizado na encosta que o engoliu? No tempo perdido? Você viu? Tetravô dos mamíferos do Brasil? O Homem vestígio? O Homem engolido pela terra primitiva? Da Era Quaternária, não sei? Secundária? Que caçava avestruz sem plumas? Caçava o cervo turfeiras? Javali e mastedonte? Ia aos mares fisgar celacanto? Rinoceronte? Sabe deste Homem? Irmão do Homem de Piltdown? Primo do Homem de Neandertal? Do velho Cro-Magnon? Do Homem de Mauer? Dos Incas, até? Dos Filhos do Sol? Das tribos da Guiné? O Homem de 100 mil anos antes de nossa era? Ou mais? Um milhão de eras? Homem com mandíbula de chimpanzé? Parecido o mais terrível dos répteis carnívoros do Cretáceo? Um mistério maior que este mistério? Navegador de jacaré? Não sabe? Homem desenterrado por acaso? Pelos viajantes, por acaso? Pela Paleontologia, não sabe? Visto nas costelas frias da Prússia, repito? Prússia renana, vá saber lá o que é isso? O Homem ressuscitado, você viu na TV? De ossos miúdos? Esmiuçados? Abertos para estudo? À visitação nos museus americanos? Como uma múmia sem roupa? Quase? Flagrada como se estivesse dormindo nas profundezas do mundo oceânico? O Homem embrionário? Das origens cavernosas da Humanidade? Sabe este Homem, não sabe? Pintado nas cavernas da Dordonha? Mesolítico? Nômade? Perdido? Este Homem dava o cu para outros homens. E ninguém, até então, tinha nada a ver com isso.
Um dos principais membros do jornalismo esportivo no Brasil, Juca é formado em ciências sociais.
Ficou conhecido ao organizar, em 1982, uma matéria que denunciava a chamada “Máfia da Loteria Esportiva”, na qual jogadores eram comprados por apostadores, a fim de garantir que os resultados dos jogos da loteria seriam aqueles em que haviam apostado, o que lhe garantiu diversas ameaças por telefonemas anônimos.
Passou por grandes veículos impressos como Playboy, Placar e Lance! e emissoras como Globo, TV Cultura, Record e SBT.
O trabalho de Juca na revista Placar priorizou o viés investigativo no esporte, coisa que havia sido feita por poucas vezes na história da imprensa esportiva brasileira.
Atualmente trabalha na ESPN Brasil, CBN e Folha de São Paulo.
2009 – Por que não desisto – Futebol, Poder e Política
Deixem Jesus em paz
Está ficando a cada dia mais insuportável o proselitismo religioso que invadiu o futebol brasileiro
MEU PAI , na primeira vez em que me ouviu dizer que eu era ateu, me disse para mudar o discurso e dizer que eu era agnóstico: “Você não tem cultura para se dizer ateu”, sentenciou.
Confesso que fiquei meio sem entender.
Até que, nem faz muito tempo, pude ler “Em que Creem os que Não Creem”, uma troca de cartas entre Umberto Eco e o cardeal Martini, de Milão, livro editado no Brasil pela editora Record.
De fato, o velho tinha razão, motivo pelo qual, ele mesmo, incomparavelmente mais culto, se dissesse agnóstico, embora fosse ateu.
Pois o embate entre Eco e Martini, principalmente pelos argumentos do brilhante cardeal milanês, não é coisa para qualquer um, tamanha a profundidade filosófica e teológica do religioso.
Dele entendi, se tanto, uns 10%. E olhe lá.
Eco, não menos brilhante, é mais fácil de entender em seu ateísmo.
Até então, me bastava com o pensador marxista, também italiano, Antonio Gramsci, que evoluiu da clássica visão que tratava a religião como ópio do povo para vê-la inclusive com características revolucionárias, razão pela qual pregava a tolerância, a compreensão, principalmente com o catolicismo.
E negar o papel de resistência e de vanguarda de setores religiosos durante a ditadura brasileira equivaleria a um crime de falso testemunho, o que me levou, à época, a andar próximo da Igreja, sem deixar de fazer pequenas provocações, com todo respeito.
Respeito que preservo, apesar de, e com o perdão por tamanha digressão, me pareça pecado usar o nome em vão de quem nada tem a ver com futebol, coisa que, se bem me lembro de minhas aulas de catecismo, está no segundo mandamento das leis de Deus.
E como o santo nome anda sendo usado em vão por jogadores da seleção brasileira, de Kaká ao capitão Lúcio, passando por pretendentes a ela, como o goleiro Fábio, do Cruzeiro, e chegando aos apenas chatos, como Roberto Brum.
Ninguém, rigorosamente ninguém, mesmo que seja evangélico, protestante, católico, muçulmano, judeu, budista ou o que for, deveria fazer merchan religioso em jogos de futebol nem usar camisetas de propaganda demagógicas e até em inglês, além de repetir ameaças sobre o fogo eterno e baboseiras semelhantes.
Como as da enlouquecida pastora casada com Kaká, uma mocinha fanática, fundamentalista ou esperta demais para tentar nos convencer que foi Deus quem pôs dinheiro no Real Madrid para contratar seu jovem marido em plena crise mundial.
Ora, há limites para tudo.
É um tal de jogador comemorar gol olhando e apontando para o céu como se tivesse alguém lá em cima responsável pela façanha, um despropósito, por exemplo, com os goleiros evangélicos, que deveriam olhar também para o alto e fazer um gesto obsceno a cada gol que levassem de seus irmãos…
Ora bolas!
Que cada um faça o que bem entender de suas crenças nos locais apropriados para tal, mas não queiram impingi-las nossas goelas abaixo, porque fazê-lo é uma invasão inadmissível e irritante.
Não é mesmo à toa que Deus prefere os ateus…
Texto publicado na Folha de São Paulo em 30/07/2009
Afro X ou Cristian de Souza Augusto, nasceu no ABC paulista e cresceu nas rodas de samba e de pagodes de mesa. Na década de 80, começou a freqüentas bailes onde conheceu a black-music. Mas a sua formação sofreu uma reviravolta quando um amigo lhe deu um vinil do Public Enemy. Esse álbum foi o que o inspirou a montar, em 1989, seu primeiro trabalho ligado ao rap: Os Suburbanos, com quem atuava ao lado do irmão Bad, hoje vocalista dos grupos Di Função e Tribunal Popular.
Passou sete anos no Complexo Penitenciário do Carandiru, hoje desativado, por assalto a mão armada. Lá, juntamente com o parceiro Dexter criou 509-E. O nome do grupo, representa o número da cela onde eles residiam.
O grupo tornou-se um dos ícones do cenário nacional. Em 2000 ganhou o prêmio Hutuz de grupo revelação pelo trabalho musical e o prêmio da TV Gazeta por videoclipe do ano, com a música de AFRO-X Só os Fortes.
Em 2005, Afro-X partiu para sua carreira solo e lançou o videoclipe da música “O Regenerado”, que retratava alguns momentos vividos pelo rapper no Carandiru.
Lançou em 2009 o livro “Ex-157, a História que a mídia desconhece”, uma autobiografia, que mostra como o cantor entrou e saiu da vida do crime.
Hamilton é editor do NFL Zine, um fanzine que existe há 18 anos e que traz entrevistas com bandas do cenário de heavy metal e rock nacionail, autores de HQ e informações sobre músicas, bandas, cinemas, seriados, além de um espaço dedicado à ficção científica.
Ele também escreve, desenha e colore o HQ NFL Comics, que mistura quadrinhos com heavy-metal e traz histórias em que os personagens são todos músicos reais como King Diamond e as bandas Krisiun, Voivod e Torture Squad, caracterizados como guerreiros ou heróis.
Apesar de gostar de Star Trek, HQs e coisas do gênero, não se considera nerd e não entende essa distinção entre nerds e geeks.
Já estudou História da Arte no Liceu de Artes e Ofícios e fez 3 cursos de astronomia.
Carioca, Paulo nasceu em 1958. Nos anos 80, integrou o grupo Cooperativa de Poetas. Morador da Cidade de Deus, na periferia da cidade do Rio de Janeiro, dedicou-se ao magistério e à pesquisa antropológica sobre a criminalidade e as classes populares antes de escrever o livro que tornaria seu nome conhecido mundialmente. Em 1995, foi contemplado com a Bolsa Vitae de Literatura. Lins acompanhou o nascimento e a ascensão do tráfico de drogas na Cidade de Deus, conjunto habitacional para onde vítimas de uma enchente no Centro do Rio foram removidas nos anos 60. Ele não chegou a conviver intimamente com os bandidos, mas os via atuar de sua janela. Seu livro, “CIdade de Deus”, serviu de base para o filme homônimo dirigido por Fernando Meirelles e foi saudado como uma das maiores obras da literatura nacional.
Paulo Lins é também um dos roteiristas mais solicitados pelo cinema e pela TV.
Multi-instrumentista (toca bateria, rabeca, violão, violino, dentre outros), compositor, cantor e dançarino, Nóbrega começou sua carreira tocando em orquestras no Recife, e integrou o Quinteto Armorial na década de 1970.
Seu trabalho une a arte popular com a sofisticação e tem como marcas registradas a multiplicidade de ritmos e estilos, o forte tom lúdico da encenação e as marcantes performances de dança.
Nóbrega também é um pesquisador da cultura popular brasileira na forma de músicas e danças.
Portuguesa de Leiria, é formada pela PUC-SP, com mestrado e doutorado em ginecologia pela Universidadede São Paulo e, há mais de 20 anos, coordena o Programa de Saúde do Adolescente da Secretaria Estadual da Saúde do Estado de São Paulo.
Com 35 anos de profissão, ela sai freqüentemente de madrugada de seu consultório e costuma atender pacientes até as duas da manhã.
Em 2005 foi eleita como uma das mil mulheres que concorreram ao Prêmio Nobel da Paz coletivo.
Caco nasceu em São Paulo e começou sua carreira na década de 1980, publicando em fanzines.
De 1993 a 1997, trabalhou na MTV como redator onde foi idealizador das campanhas de cidadania, prevenção à AIDS e contra a violência. Na televisão também já escreveu para o programa Casseta e Planeta Urgente.
Cartunista de tiras como “Os pescoçudos”, publica seu trabalho no jornal Folha de S.Paulo, desde 1997.Colabora regularmente com várias revistas nacionais e internacionais. Também já fez fez ilustração, animação e roteiros para vídeos/documentários, e animações para Unicef, Nickelodeon e Festival Videobrasil.
Cidadão, que não leva a alcunha de famoso. Capixaba, veio para São Paulo na adolescência em busca de trabalho. Trabalha em uma gráfica e, dono de uma língua ferina, não mede as palavras para falar de religião, migração e discriminação social.
Contardo Calligaris é psicanalista, doutor em psicologia clínica e colunista daFolha de São Paulo. Italiano, hoje vive e clinica entre Nova York e São Paulo. Fez seu doutorado em Psicologia Clínica pela Universida da Provença, na França, onde defendeu a tese “A Paixão de Ser Instrumento”, estudo sobre a personalidade burocrática. Também é professor de Antropologia na Universidade da Califórnia em Berkeley e de estudos culturais na New School of New York.
Introdução a uma Clinica Diferencial das Psicoses (Artmed, 1989)
Crônicas do Individualismo Cotidiano (Ática, 1996)
Hello Brasil (Escuta, 2000 [6ª ed.])
A Adolescência (coleção: “Folha Explica”, Publifolha, 2001)
Terra de Ninguém (Publifolha)
IIha Deserta (Publifolha, 2003)
Cartas a um jovem terapeuta (Alegro, 2004)
Conto do Amor (Companhia das Letras, 2008)
Quinta Coluna (Publifolha, coletânea de textos publicados no jornal Folha de São Paulo, no caderno Ilustrada)
Crimes insignificantes
É viável uma sociedade em que preocupações morais substituem as normas jurídicas?
A FOLHA de sábado passado (reportagem de Felipe Seligman e Sofia Fernandes) noticiou que, ao longo de 2008, o Supremo Tribunal Federal julgou 14 casos em que considerou “insignificantes” os crimes cometidos: as ações penais deveriam ser arquivadas e os culpados que estivessem presos deveriam ser soltos.
O que é um crime insignificante? Primeiro, o que foi roubado ou destruído deve ser uma bagatela, ou seja, pouca coisa (claro, a bagatela não pode ser definida de vez: o que é pouca coisa para mim pode não ser para você).
Segundo, ajuda o fato de que o crime tenha sido perpetrado, como notou o ministro Carlos Ayres Britto, por “extrema carência material”. Por exemplo, seria insignificante roubar o básico se você e sua família passam fome. O ministro Celso de Mello acrescentou que o sujeito assim isentado não deve apresentar “nenhuma periculosidade social” (isso, claro, é uma previsão).
A questão não é concordar ou não com as decisões do STF: existem crimes que nos parecem pouco relevantes e pelos quais achamos injusto que um cidadão seja encarcerado -sobretudo, muitos acrescentarão, considerando o bando de criminosos bem mais relevantes que andam livres pelas nossas ruas. Isso sem contar a superlotação do sistema carcerário.
O que me interessa é que as 14 decisões do STF constituem uma espécie de marco. Imagino facilmente um juiz de primeira ou segunda instância ponderando alternativas mais morais do que propriamente jurídicas: “Se encarcero este homem, o que acontece com suas crianças? Ou então, se eu o encarcero, será que faço do crime seu destino, enquanto seu comportamento foi excepcional, ditado por circunstâncias extremas?”. Há mesmo situações que a lei não pode contemplar e que pedem uma avaliação “humana”, quase afetiva. Mas, visto que as decisões emanam do Supremo, é como se, desta vez, a preocupação moral alterasse ou substituísse a norma jurídica. Isso é uma novidade. Devemos festejar? A verdade é que não sei.
Os psicólogos conhecem os dilemas que Lawrence Kohlberg inventou, nos anos 70, para medir o desenvolvimento moral das pessoas. O primeiro deles podia ser resumido assim: “É errado roubar remédio se seu filho está doente e você não tem recurso algum?”. Hoje, o STF parece responder que se trataria de um erro insignificante. Para Kohlberg, essa resposta tem uma qualidade moral superior àquela que diria que, necessidade ou não, bagatela ou não, roubar é proibido.
Agora, Kohlberg media a qualidade do pensamento moral, ou seja, a complexidade do foro íntimo das pessoas. Ele não pedia que, na hora de dar suas respostas, os sujeitos testados apreciassem a legalidade das condutas avaliadas -por uma razão simples: em nossa cultura, a esfera pública da legalidade é separada da esfera privada da moral.
Já faz alguns séculos que a ideia de justiça se desvinculou da ideia de legalidade: o que nos parece justo não coincide necessariamente com o que é legal. Podemos achar, sem contradição, que uma lei é injusta; e nosso tribunal interior é mais importante, para nós, do que o veredicto de uma corte. Essa maneira de pensar é um dos traços gloriosos da modernidade ocidental.
Na reportagem que citei, Britto declara que o STF recorreu a uma distinção entre o formal e o material: algo pode ser crime formal, mas não material (o concreto é mais importante do que a letra). A consequência vem a seguir: o ministro também declara que, no caso do crime de bagatela, foi afastada “a ilicitude do caso”. Ou seja, a consideração moral concreta acabou com a ilegalidade abstrata do ato.
Muitos especialistas em segurança pública recearão as consequências dessa posição, pois vários estudos mostram que o crime se expande lá onde as simples infrações não são reprimidas: se é tolerado que a gente urine nos cantos, então haverá quem assaltará -como se a “generosidade” da lei comprovasse sua ausência ou seu sono. Mas, fora essa consideração, as decisões do STF revelam um impasse específico da modernidade. Uma sociedade regida pelo foro íntimo seria, provavelmente, mais justa do que uma sociedade governada pela letra da lei. Mas será que ela é possível? Será que somos capazes disso? Será que somos homens à altura dessa esperança?
Essa pergunta é, por sua vez, um dilema moral -ao qual, obviamente, não sei responder.
Artigo publicado na Folha de São Paulo em 26 de março de 2009.
Ugo Giorgetti é cineasta. Grande parte de seus filmes se passam na cidade de São Paulo e, embora mostrem uma leve ironia e bom humor, em geral, todos buscam explorar de alguma forma a questão da transformação de São Paulo e do Brasil.
Ugo também publica, sempre aos domingos, uma coluna sobre futebol no Jornal O Estado de São Paulo .
Compositor e intérprete do grupo Facção Central, Eduardo conviveu desde a infância com violência social, tráfico de drogas, vícios, violência policial e presídios. Um passado violento transformado em fonte de inspiração e traduzido em compoisções contudentes que relatam a realidade cotidiana das camadas mais baixas da sociedade, além de criticar duramente aqueles que, na visão de Edurado, seriam os causadores dos problemas discutidos nas letras das canções.
Ameaças policiais por telefone, censuras de algumas rádios, prisões pelo conteúdo de algumas letras e até mesmo a proibição de veiculação na televisão brasileira do videoclipe “Isso aqui é uma guerra”, considerado pelas autoridades como apologia à violência, são algumas das consequências decorrentes da postura do grupo.
Machucado sangrando sufocado
Dentro do porta-mala do meu bmw
Um ladrão no volante rindo a toa
Outro com meu cartão e minha esposa
Obrigando ela a sacar meu dinheiro no caixa
Com a mira laser nas costas nove cromada
Não tem como gritar nem dar alarme
Já premedito flores a benção do padre
Por que não fui morar na europa?
Grande merda essa blindagem foi só abrir a porta
Que o monstro da notícia que pra mim era fictício
Pulo deu coronhada extremamente agressivo
Talvez seja algum moleque que eu não dei esmola
Fechei o vidro na cara, tchau porra sai fora
Agora vejo o que resulta a barriga cheia de ar
Do filho da faxineira cortando minha jugular
Ações imóveis conta no exterior
Quando o oitão ta na cabeça nada disso tem valor
Será que o fim vai ser igual filme jornal mulher estuprada
Com o marido assistindo e eles dando risada
Cada ação preventiva da porra da polícia
Tão num bar comendo coxinha, só vem quando virem carniça
Querem meu sangue pra encher uma panela vazia
Esse é o preço pela indiferença cobrado pela periferia
2x o clima é tenso a chance é muito pouca
Vou terminar o dia com um tiro na boca
Sente o ódio do diabo que você ajudou a criar
Agora, dono do jato, é muito tarde pra chorar
Cala a boca doutor não da mais nem um pio
Se não te mando com tua vaca
Pra puta que o pariu
Vai ter pivete órfão no morumbi
Caixão com alça de outro assinado por mim
Diferente de você não tenho bmw
Só um cômodo no barranco que com a chuva ta soterrado
Teu filho vai pra escola com vigia detector
Enquanto o meu não tem aula nem professor
Vai ser seqüestrador, vai matar polícia
E ainda adolescente vai pra mesa do legista
Não uso grife sapato italiano
Eu não to na moda nem etiqueta tem nos meus pano
O sonho da minha coroa era me ver com diploma e bíblia
Mas o brasil meu deu o cano, que faz teu parente virar carniça
Por isso seu sangue não me comove
Por isso invado a cobertura e abro o boy com a nove
Amarro a governanta tortura a família
Quero mais dinheiro ai coroa não me tira
Mataram a esperança só deixam como herança
Uma doze com uma caixa de bala pra criança
Ia me entender se visse sua filha na esquina
Por cinco conto no hotel dando a vagina
Então cuzão da um tempo fica quieto
Talvez se der sorte não vai pra necrotério
2x o clima é tenso a chance é muito pouca
Vou terminar o dia com um tiro na boca
Sente o ódio do diabo que você ajudou a criar
Agora, dono do jato, é muito tarde pra chorar
Os minutos passam, tensão extrema
Será que a minha mulher errou a senha
Me lembro que um deles é menor
Sé pa joga gasolina e risca o fósforo sem dó
Eu to ligado que fome e crack faz o bandido
Então por que não estraçalham a cabeça do político
Não nego minha culpa no menino faminto
Em vez de cesta básica comprei relógio suíço
Contratei vigia, lancei carro blindado
Mas se o ladrão ta no banco, não é só eu que sou culpado
A porta abre um grita, entra logo vaca
Tão dando coronhada porra ela ta grávida
Agora pensa duas vezes pra comprar o diamante
Pra sua piranha usar uma noite só no restaurante
Olha a cara dela, toda ensangüentada
Vê do que é capaz quem vive de migalha
Investir em colete a prova de bala é ilusão
Minha bala com teflon atravessa ele e seu coração
Enquanto teu filho tiver na disney e o meu no reformatório
É quatro cinco na sua boca, autópsia velório
Não chora pelo carro, seguro paga outro
Cataram um boi sai fora nasceram de novo
Corre pro dp chama seu policial
Só por um milagre vão me ver no tribunal
O clima é tenso a chance é muito pouca
Vou terminar o dia com um tiro na boca
Sente o ódio do diabo que você ajudou a criar
Agora, dono do jato, é muito tarde pra chorar
Nascido na capital de São Paulo, com o nome de Pedro Silva, tornando-se poeta ao adotar o heterônimo Glauco Mattoso, trocadilho com “glaucomatoso”, por ser portador de glaucoma congênito, que o levaria progressivamente à cegueira no início da década de 90. Nos anos 70 integrou a chamada “Geração Mimeógrafo” e participou da “Poesia Marginal”. Criou um fanzine poético-satírico chamado Jornal Dobrabil (trocadilho com o Jornal do Brasil e o formato dobrável do panfleto, publicado em folhas avulsas) e colaborou em diversos órgãos da imprensa alternativa, como Lampião (tablóide gay), Pasquim (tablóide humorístico), Escrita (revista literária), Chiclete com Banana (revista de HQ), Top Rock (revista musical), etc.
Sempre esteve voltado à cultura underground e aos temas transgressivos, como o sexo bizarro, o sadomasoquismo, a tortura, a violência no rock tribal e, sobretudo, o lado “maldito” da poesia, em seus momentos mais escatológicos e fesceninos
A obra poética de Glauco está quase toda inédita ou esparsamente publicada em livretos esgotados e suplementos ou fanzines e no seu site.
Diretor de cinema, graduado pela Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP). Começou sua carreira dirigindo videoclipes como Nem sempre se pode ser Deus, Taxidermia, Será que é isso que eu necessito?, da banda Titãs.
Depois, dirigiu curtas-metragens como Dov’e Meneghetti?e Jô, seu primeiro trabalho premiado. Na sua lista longas estão Os matadores, Ação entre amigos e O invasor.
Uma das características do trabalho de Beto Brant é realizar filmes que começam e terminam com reticências, mas que não se tratam de obras abertas.
Cantora e compositora, destaca-se como uma das principais compositoras na produção musical brasileira contemporânea. Com muitas músicas gravadas, algumas por intérpretes de renome como, Ney Matogrosso, Zélia Duncan, Itamar Assumpção, Tetê Espíndola, André Abujamra, Vange Miliett, Jerry Espíndola, Ceumar, Maria Alcina, Dona Zica entre outros. Em São Paulo desde 1985, vivendo a influencia do momento da vanguarda paulistana tornando-se parceira de um de seus principais nomes, Itamar Assumpção e com ele uma grande parte da sua produção musical nos anos 90.
Com vinte e três anos de carreira solo, fora do circuito das grandes gravadoras, Alzira E lançou sete álbuns: “Alzira Espíndola”(86); “AMME”(92), produzido por Itamar Assumpção; “PEÇAMME”(97); “Anahí”(98) gravado ao vivo, em dueto com Tetê Espíndola; “Ninguém Pode Calar”(2000), em homenagem a cantora e compositora Maysa; “PARALELAS” (Ducan Discos-2005), que reúne exclusivamente parcerias com Alice Ruiz, onde há um encontro entre a música de Alzira e a poesia dita pela própria Alice; e o CD “Alzira E” (2007-Duncan Discos), fruto de um encontro de grande produção, com o poeta paulistano arrudA, que com ela assina as 13 faixas do CD. Cultura.
Laís Bodanzky é formada em cinema e estreou na direção em 1994 com o curta-metragem “Cartão Vermelho”. Em 2000 cumpriu a promessa que havia feito aos 26 anos – lançar seu primeiro longa-metragem ao completar três décadas de vida – e dirigiu o premiadíssimo longa “Bicho de Sete Cabeças”.
Junto com seu marido Luiz Bolognesi, também é responsável pelo projeto Cine Tela Brasil: uma sala de cinema itinerante com estrutura de primeiro mundo que já circulou por 98 municípios dos estados de São Paulo, do Rio de Janeiro e Paraná, onde já foram apresentandos filmes nacionais infantis e para adultos para mais de 230 mil espectadores que de outra forma não teriam acesso às salas de cinema.
Em 2007, idealizou as Oficinas de Vídeo Tela Brasil, que têm como objetivo oferecer ferramentas de criação e expressão através do audiovisual às comunidades de baixa renda.
Músico, poeta e artista visual, Arnaldo apresenta em sua obra grande influência dos gêneros artísticos modernistas e pós-modernistas.
Em 1978 ingressou em Letras da FFLCH-USP, onde seguiria o curso de Linguística, não fosse o sucesso dos Titãs, banda da qual fazia parte na época. Porém, em 1992, desligou-se da banda por conta de suas direções artísticas. Apesar de sua saída, Arnaldo continuou compondo com os demais integrantes do grupo e várias dessas parcerias foram incluidas em discos dos Titãs, assim como em seus discos solo.
Em 2002, formou em parceria com Marisa Monte e Carlinhos Brown o trio Tribalistas, pelo qual lançaram um álbum homônimo. Também atuou como ensaísta na Folha de São Paulo e lançou, no final de 2007, o primeiro DVD de sua carreira, o Ao Vivo No Estúdio.
Dj Hum, nome artístico de Humberto Martins é rapper e produtor musical. Começou sua carreira em 1985 e é considerado por muitos como um dos pioneiros do rap no Brasil, juntamente com seu antigo parceiro Thaíde. Ele também é fundador do grupo de rap “Matirô”, junto com o rapper Lino Crizz, que em 2005 gravou a música “Senhorita” e que se tornou um grande sucesso no país.
Ele se chama Humberto Martins, so que também é conhecido por HUM. No início dos anos 80, ainda menino, só tinha uma opção de entretenimento na periferia de São Paulo, onde cresceu: as matinês da Zona Leste.
De tanto ir nesses “bailinhos”, começou a se interessar por música, juntou amigos e ganhou muitos discos de black music do seu tio, como do pai do soul James Brown. Os presentes do seu familiar foram os primeiros passos para a discotecagem. Hoje, sua coleção (foto) conta com inúmeros vinis – mídia que o artista prefere trabalhar
Conheceu outro apreciador da cultura hip hop, o rapper Thaíde, que juntos deram o pontapé incial do rap com sotaque brasileiro.
A dupla gravou 9 discos, em 17 anos de carreira, que terminou em 2001. De lá pra cá, cada um seguiu seus projetos pessoais. Hum criou o selo “Humbatuque”, compôs bases, conheceu o rapper Cabal e o cantor de soul Lino Crizz.
O final feliz dessas duas novas amizades foi o hit “Senhorita”, responsável pela criação do grupo Motirô.
Entre um compromisso e outro — antes de falar com o !Oba Oba, o DJ conversava com a equipe da Rádio 105 FM — emissora que realiza um programa aos sábados.
Após as interrupções no decorrer da conversa, confira o relato de quem fez e faz parte da introdução da cultura de rua no Brasil.
!ObaOba: Você e o rapper Thaíde foram os primeiros a fazer rap por aqui, como isso começou? DJ Hum:Conheci o Thaíde (foto) nos anos 80, lá na Archote – casa que ficava em Moema (SP) e era bem popular na época. A dupla surgiu em 1986, quando nos apresentamos no antigo espaço Mambembe. O Escova, Dudu Maroti e Nasi (do Ira!) iam lá. Pode-se dizer que esses três foram os primeiros apoiadores do movimento hip hop nacional. Depois fomos para a São Bento e foi lá que começamos a ouvir aquele funk falado, só descobrindo mais tarde que era o rap. A região era legal, porque tinha uma pista lisa e ficava na região central de São Paulo.
!ObaOba: Quem freqüentava a São Bento na época? DJ Hum: Eram umas 20 pessoas, entre músicos, dançarinos e curiosos da black music, que iam lá sábados. Nomes como Sampa Crew, Marcelinho Back Spin e Street Warriors. Nunca imaginei que isso fosse chamar a atenção de jornalistas, produtores e músicos de outros estilos. Quem também aparecia por lá era a polícia. Tivemos muito material apreendido, pois para os policiais éramos considerados vândalos.
!ObaOba: Mudando de gênero musical e indo ao movimento punk, pode-se falar que ele influenciou o hip hop brasileiro? DJ Hum: Sim. Tem tudo a ver. Quando chegamos, na estação São Bento, eram os punks que freqüentavam o local, eles estavam saindo de lá e nos mostraram muita coisa, inclusive a banda The Clash. Isso influenciou o rap e todo o movimento hip hop.
!ObaOba: Por vivermos em um país multicultural, o rap também já foi misturado ao samba, rock e até o chorinho. Você acha que algum ritmo não combinaria com esse estilo? DJ Hum: Acho que o rap combina com todos os estilos e pode ser misturado com eles. Ele é um dos elementos do hip hop, que também tem o DJ, o MC, os grafites e o break.
!ObaOba: O Rio de Janeiro é a capital do funk, São Paulo seria então a capital do hip hop? DJ Hum: Sim. O hip hop começou aqui em São Paulo, nas agitações da São Bento (estação de metrô). Foram lá as primeiras oficinas desta cultura de rua.
!ObaOba: Além do rap, o que você ouve? DJ Hum: Gosto muito de soul, jazz funk, samba soul, punk dos anos 70, new soul — que aqui no país é chamado de charm. Também ouço muito música moderna brasileira, como vem fazendo os selos Tratore e Trama.
!ObaOba: Tem algum artista em especial que você ouve mais ultimamente? DJ Hum: Sinto algo forte quando ouço o rapper Common.
!ObaOba: Como surgiu o hit “Senhorita”? DJ Hum: Experimentei umas batidas diferentes, produzindo rythm and blues e uns Hip Hop dos anos 70, feitos para a pista. A base instrumental de “Senhorita” eu fiz em 2003 e não tinha letra. Quando eu ia tocar em algum lugar, eu brincava de MC com a levada e mixava. Percebi que a música tinha potencial, porque a galera curtia. Logo depois, o Cabal (MC) me pediu para produzir uma música. Falei que tinha uma base, com tema, e expliquei que queria falar do amor à primeira vista, do adolescente, dos primeiros bailinhos, a menina linda, a senhorita e a coisa mais linda. Eram emoções que eu vivi onde morava e não podia deixar para trás. No final foi uma composição minha, do Cabal e do Lino Crizz (foto). Foi o encontro responsável para criarmos a banda Motirô.
!ObaOba: Qual o significado da palavra Motirô? DJ Hum: É uma palavra indígena – tupi-guarani – e quer dizer reunião de pessoas, de uma mesma tribo, para construir algo produtivo e positivo.
!ObaOba: Quais são os estilos de músicas do grupo? DJ Hum:O Motirô é formado por 25 pessoas e o DJ, que sou eu. É uma junção de sons e artistas, composta de baixo, bateria, metais (saxofone e trompete), percussão, teclado e 2 backing vocals. Também tem os cantores Lino Crizz e Mara Nascimento, o MC Tio Fresh e o rapper De La Souza, que rima em espanhol. Além de convidados diferentes a cada show. Nós tocamos hip hop e com influência de músicas latina, indiana e árabe.
!ObaOba: Tanto na primeira música da Motirô como nas outras, há rimas em espanhol. Por quê? DJ Hum: É a idéia da América Latina unida. Seria ótimo se o Brasil conhecesse mais a cultura dos países vizinhos. Quero abrir o mercado brasileiro para toda a América Latina. Os outros países não colocam sambas brasileiros em suas músicas? E isso não é legal? Então, vamos colocar frases em espanhol em nossas músicas.
!ObaOba: O que esperar das duas apresentações da Motirô neste fim de semana no Sesc Pompéia? DJ Hum:Vamos fazer um revival da música black dos anos 70, misturando com a sonoridade do século 21. Neste show vai ter o Silvera, o BNegão (foto), que é meu amigo de longa data, desde os tempos em que ele era do Planet Hemp, já tocamos juntos algumas vezes. A banda vai contar com o groove do Tonny Bizarro, que é o rei da discoteca. Já toco há mais de 20 anos e gostaria de unir as gerações.
!ObaOba: Qual o motivo dessa mistura de gerações? Seria legal se a nova geração pudesse conhecer as músicas e a antiga reviver. É algo incrível quando os pais, que hoje têm 40, 45 anos levam seus filhos aos shows e me falam: “Eu curtia seu som quando era jovem, agora quero que meus filhos conheçam e gostem também”. E essa é a maior gratificação para um artista, pois uma das maiores glórias é olhar para o passado e não ter vergonha dele.
!ObaOba: Qual sua posição na briga entre as gravadoras e a pirataria? DJ Hum:Acho que as grandes gravadoras deveriam investir em selos e músicos independentes. É uma solução para baixar o custo do CD.
!ObaOba: Você é contra a pirataria? DJ Hum:Eu não disse isso. Eu não acho que é algo honesto, o que é diferente de ser contra. Se eu fosse contra não teria mandando vários e-mails com a música “Senhorita” para as pessoas ouvirem. Nesse caso, eu mesmo piratiei meu trabalho para divulgar o disco, que tinha essa música.
!ObaOba: O hit “Senhorita” conquistou não só os brasileiros, como também os europeus. O single “Senhorita” rendeu um contrato com uma gravadora britânica e e apresentações fora do país. Como é tocar no exterior? DJ Hum:Eu toquei na Inglaterra, na França e no Japão. Lá fora eu só toco música nacional, como Tony Tornado, Tim Maia e o público adora.
!ObaOba: Que balada você gosta? DJ Hum: Em São Paulo gosto do Blen Blen. E em Goiânia o Fiction
!ObaOba: Além de festas e produções, o que o DJ Hum gosta de fazer? DJ Hum: Por incrível que pareça, eu gosto de ir para o interior de São Paulo para caminhar, correr, curtir a natureza, o mato e a cachoeira. Colocar também um CD de new age, relaxar e meditar. Juntar os amigos, trocar idéias e ouvir com eles músicas psicodélicas e de vanguarda.
Letrista, vocalista e guitarrista, Clemente fundou bandas “Condutores de Cádaver” e “Os Inocentes” e foi um dos responsáveis pela explosão do movimento punk no Brasil. Recentemente, integrou a nova formação da Plebe Rude.
Também foi um dos responsáveis pelo extinto programa “Musikaos”, da TV Cultura, apresentado por Gastão Moreira.
Fernando é escritor, roteirista, dramaturgo e cineasta. Dentre seus roteiros para o cinema estão “Estação Carandiru” e “Cazuza – O tempo não Para”. Na TV escreveu episódios das séries “Castelo Rá-Tim-Bum” e “Mundo da Lua”.
Autor de 19 livros, também escreve no jornal “Folha de São Paulo”
O carro dobrou na Cesário Mota Jr., e Cibele logo percebeu que era o homem esquisito. Já passava de seis meses agora. Toda semana. Toda sexta-feira à noite. Nove horas em ponto o sujeito aparecia. Banho tomado, roupa passada. Ele vinha escorregando com o carro pro lado dela. Parava, mas deixava o motor ligado. Destravava a porta. Às vezes dizia alguma coisa.
— Boa noite.
— Boa.
Às vezes, nem isso… Mas sempre aquele cheiro de água de colônia. Enjoativo. Cibele sentia falta de ar. Procurava pelo botão do vidro. Não achava. Não tinha coragem de perguntar onde ficava. Contava até dez. Passava.
— Aposto que eu sei onde a gente vai…
O homem fez que sim com a cabeça. Ele a levava pra comer frango à passarinho com caipirinha em Pinheiros. Bebiam e comiam em silêncio aquelas irresistíveis desgraças cheias de gordura até perderem o juízo. Ela não conseguia se controlar. Depois pediam sobremesa. Ela simplesmente não conseguia se controlar! E ainda tomavam cafezinho:
— Sem açúcar, por favor…
Ele pagava e a deixava no mesmo lugar. Pagava o preço mais caro. Perguntou na primeira vez:
— Quanto é pra fazer tudo?
Ela caprichou. Ele tirou o dinheiro do bolso. Não tinha muito mais do que ela pedira, mas fez questão de acertar antes. De lá pra cá era sempre igual. Uma vez perguntou:
— Teve aumento?
Cibele não teve coragem. Pediu o de sempre.
Portanto ele podia fazer tudo o que quisesse, mas sempre a devolvia na mesma esquina. “Sem um arranhão!”, como costumava dizer às amigas. Toda semana. Toda sexta-feira, entre 11 e 11 e meia estava de volta ao ponto. Menos mal, pensava a mulher, que ainda contava com todo o movimento da madrugada pra aproveitar. Aproveitava mesmo, que Cibele não fazia questão de prestar e tinha muitos planos; mas aquele homem… Não sabia se tinha vergonha… Ou pena. O coração dela ficava espremido. Ruminava as razões dele. Passava a semana com esse troço por dentro. Não chegava a lugar nenhum.
Até esse dia tinha ficado quieta, mas, no restaurante, quando ele perguntou o que ela queria, Cibele pôs a língua pra fora e disse:
— Você.
O garçom se fez de morto. Era um bom garçom. Ficou brincando de estátua com a caneta e o bloquinho. Passou um bom tempo assim, porque o homem deu uma risada comprida e só então virou pra pedir:
— Duas caipirinhas de pinga e um frango à passarinho.
O garçom se afastou e a mulher continuou provocando:
— Você gosta de beber, né?
— É bom, fica tudo mais fácil…
— Devia comer de vez em quando.
Dessa vez o homem não riu.
— Você é casado?
— Hum-hum.
— Mentira. Se fosse casado a tua mulher ia desconfiar da rotina.
— Não é uma questão de confiança.
— Ela é doente?
O homem voltou a rir.
— Você é doente?
— Não.
— Gay?
Chegou o pedido. Cibele ficou desacorçoada. Costumava dizer que se um dia fosse executada, frango à passarinho seria sua última refeição. Tentou escolher um pedaço bem sequinho. Difícil. Ficou mordiscando. Depois pegou mais. E foi pegando, querendo morrer. Seus lábios brilhavam quando perguntou:
— Eu não sou boa pra você?
O homem teve a coragem de fazer Cibele esperar que pegasse um cigarro do maço, tirasse caixa de fósforos do bolso da calça, um palito de dentro dela, acendesse esse maldito cigarro e só então se dignasse a responder:
— Você é a melhor coisa da minha semana.
— “Coisa”?!
O homem bufou diante da mulher, levantou a palma da mão pro garçom e fez que escrevia nela com um dedo. Cibele ficou pescando os restinhos de alho da bandeja.
— Você me engorda.
Cibele fechou a cara. De cara fechada esperou que o homem pagasse a conta e a levasse de volta à esquina de sempre. Nessa noite Cibele não sentiu o enjôo da água de colônia quando ele se debruçou nela pra destravar a porta. Desceu e ficou de costas. O homem baixou o vidro. “Aqueles botões…”
— Até sexta-feira…
Cibele pensou em ofender, mas quando virou, aquele homem esquisito estava bem ali… Ela sem saber se era vergonha ou pena… O coração espremido…
Palhaço, dramaturgo, cenógrafo, figurinista, diretor e produtor cultural há 26 anos, é formado no Picadeiro Circo Escola em São Paulo e um dos criadores do grupo de comédia Parlapatões, Patifes & Paspalhões.
Matéria publicada na Folha de São Paulo em 04 de janeiro de 2006, na coluna “Tendências e Debates”.
Por Hugo Possolo
As elites orquestraram para que eu me tornasse palhaço. O complô da mídia me vestiu roupas largas e sapatões e pintou minha cara. Impuseram-me o papel de idiota. Eu, que não sabia de nada, me senti traído. Apenas fui levado por companheiros de 30 anos de luta que, agora percebo, queriam que eu fosse absolutamente ridículo.
É verdade que, no começo, assumi e dei uma festa no apê. Distribuí metáforas com cara de aforismos e desaforos para quem quisesse ouvir. Afinal, o palhaço pode tudo. Inclusive rir das piadas recicladas que fazem a meu respeito. Sobre o dedo que me falta, o conhecimento que me falta e até sobre a honestidade, que também me falta.
Tudo bem, até que um cantor de ópera bufa fez sua cena de ópera de sabão. Delatou, debaixo de nossa honrada lona tombada pra baixo, que alguns deputados recebiam uma mesadinha extra. Apoiei-me na velha máxima de que ser palhaço é fácil, mas que o difícil é levar isso tudo a sério. O canastrão de olho roxo logo passou a ser o pop star da nação. Bandido sempre deu mais ibope na televisão. E todo mundo grudou a vida na TV Senado. Encenação com ares de megashow. Fiquei enciumado.
Revidei com o publiciotário. Só que a propaganda premiada do gênio da lâmpada teve a esperteza de divulgar que o dinheiro bom é aquele não-contabilizado que está bem contabilizado nas contas do exterior. E depois, o palhaço sou eu! Fiquei vesgo, em pânico, com a cara da Sol. Chorei a minha vontade de morar em Miami, onde os americanos falam português. Não deu certo. Afinal, eu também não falo português. Tornei-me um palhaço preconceituoso só porque não vi o beijo gay.
De repente, baixou o clero esclerosado e o presidente da câmara de pneus furados não pagou a conta do restaurante. Veio o dono, passou a fatura e mandou a vida severina pro futuro distante da eleição. Nada de renunciar aos votos do povão. Porque, cá entre nós, coronel burro nasce bóia-fria. Pisei em ovos. Aí, meus deputados pegaram a gripe do frango e caíram na farra com as galinhas. Mas a cafetina garantiu que eram apenas recepcionistas. Eu preferia que meus deputados estivessem com a febre aftosa. Assim, eu exterminaria o rebanho todo.
Entrei pelo cano de um valerioduto. Caí no buraco negro das pesquisas em que até vampiro ganha de palhaço. Desanimado, comprei uma cueca nova na Daslu. Enchi a danada de dólares e fui gastar na Daspu. Minha bengala típica de palhaço foi enfiada na cabeça de meu pupilo, que agora diz que não sabe se vai votar em mim.
Aproveitei para ver um filme de piratas, que eu adoro saques. Só que me trouxeram os dois filhos do rio São Francisco. E eu boiei. Um padre fez greve de fome e não me deram mais DVD para eu ver, nem nos entreatos. Citei o futebol, mas a ficção se tornou realidade. Juiz ladrão não é só o que rouba na construção de tribunais. Ainda tenso, rebolei para francês ver. E quem faturou foi a gravadora do meu artista ministro, curiosamente o grande destaque da festa.
E já era Natal. Enquanto o rei cantava que quer ter um milhão de amigos, meu vice leva um milhão em camisetas. Recebe em grana viva, coisa muito comum para quem não quer saber de onde veio o dinheiro. Profetizei o velho chavão, de um chavista que sequer trabalha no SBT e não quer saber de políticas globais. Usei a frase de defeito:
- Nunca neste país teve tanta palhaçada mal feita!
Até esta Folha esculhambou-se, neste espaço, onde escrevem ilustres figuras da República, permitindo que um palhaço qualquer fizesse seu deboche. A coisa estava ficando séria. Então, senti meu nível cair demais. Não comando nem o carrinho de pipoca da Disney. Sou um personagem terminal com um imenso ano pela frente. Decido, então, fazer a mudança que prometi. Finalmente, deixo de ser palhaço ruim para não me parecer com um presidente. É bem melhor ser palhaço de verdade.
Já sei! Vou quebrar meu sigilo bancário. Assim, todo mundo saberá que, além do nariz, eu também tenho a conta no vermelho. O vermelho que desbotou da estrela é bom para quem quer ter vergonha na cara. Sabe, senhor presidente, é tão bom reconhecer-se ridículo, sem a dignidade aparente. É bom ser livre, ainda que no pensamento. É bom dormir com a consciência tranqüila.
Não sei como é para o senhor. Às vezes, repasso um pesadelo que não é só meu. Como escreveu Eric Bogosian, na adaptação de Aimar Labaki: “De uma nuvem esfumaçada, vestida numa roupa sadomasoquista, surgirá Regina Duarte me cravando por trás. Arrepiado, sinto sua mão suave subir até a minha nuca, enquanto ela sussurra quente ao pé do meu ouvido:
- Perdeu o medo? Agora perde a esperança!”
Dagmar Garroux, a Tia Dag, é fundadora da Casa do Zezinho, uma entidade não governamental sem fins lucrativos, localizada na zona Sul de São Paulo.
Fundada em 06 de março de 1994, para ser um espaço de atuação para crianças e jovens de baixa renda, começou com 12 Zezinhos e atende atualmente 1200 crianças e adolescentes de baixa renda, entre 6 e 21 anos, moradores dos bairros próximos, que freqüentam 67 escolas públicas da região.
O projeto possui sede própria com área construída de 2900 m2, dividida em espaços de aprendizagem, oficinas e ateliês de arte, quadras poliesportivas, piscina, refeitório, padaria, cabeleireiro, auditório, ambulatório médico, consultório dentário e horta.
Junto com o marido, ela comprou a casa onde sonhava viver. Na época, a zona sul de São Paulo parecia um refúgio com todas as qualidades que hoje são anunciadas pelos condomínios fechados. Perto do centro, com a calma e a paz do campo, o horizonte ao alcance dos olhos e o futuro desenhado na paisagem. Só não havia um detalhe, exatamente aquele mais alardeado nos tais anúncios: segurança. É que há cerca de 15 anos, apesar da aparência ainda relativamente tranqüila e limpa, as primeiras áreas da zona sul de São Paulo começavam a ser invadidas pelas famílias que não se encaixavam na cidade, expulsas pela engrenagem e pela cada vez mais míope gestão pública.
Em vez de colocar a casa à venda e buscar um refúgio com grades altas, como talvez você e eu tivéssemos feito, a paulistana Dagmar Garroux, aos 36 anos, teve aquela que talvez tenha sido a melhor idéia de sua vida. Resolveu, com seus próprios recursos, transformar a casa que havia comprado numa espécie de centro de educação, diversão e cultura – hoje chamado Casa do Zezinho – dedicado às crianças da região, a mesma que algum tempo depois seria classificada por organismos internacionais como uma das mais violentas do mundo, o Capão Redondo e seus arredores. Hoje, a casa de Dagmar é um local cercado por 60 favelas e habitado por 1,5 milhão de habitantes.
Garota criada com conforto em São Paulo, pedagoga por formação, discípula de Paulo Freire, um dos maiores educadores de todos os tempos, e já àquela altura com larga experiência em atender crianças e jovens com problemas, Dagmar, com o apoio do marido, o artista plástico Saulo Garroux, transformou sua idéia em uma das mais bem-sucedidas experiências de educação e amor a quem não tem nem um nem outro deste país. Na entrevista que segue, você conhecerá os infinitos obstáculos, a visão de mundo e a maravilhosa remuneração que Tia Dag, como é chamada pelas 1200 crianças que atende, amealhou ao longo de muitos anos de dedicação incondicional distribuída indistintamente a traficantes, bebês de colo, mães adolescentes, rappers, ex-presidiários, banqueiros e empresários.
Vaidade para ela é a busca por educação. Ao contrário do ordinário, Dagmar deposita seu olhar no outro, e não no espelho.
Por que um dia você quis morar aqui?
Por que era uma ruinha de terra, legal… Isso em 1988. Comprei a casa e, de repente, percebi que estava entrando em um campo minado, uma região que estava sendo invadida por comunidades carentes. Você se deparou com bandidos, traficantes, foi isso?
Não! Quer saber com quem eu tive problemas depois que decidi fazer a Casa do Zezinho? Com os moradores da rua. Eles começaram a me denunciar, falar que eu ia fazer uma Febem. Teve denúncia de formação de quadrilha, a polícia invadia e aí o pau quebrava. E você tinha alguma experiência em área social?
Aos 14 anos, fui estagiária do Juizado de Menores, a Febem da época. Tinha muita tortura, eu denunciava e os generais me ameaçavam. Como você decidiu fundar a Casa do Zezinho?
Desisti de morar na casa, juntei cinco amigas da USP e começamos. Cinco malucas [risos]. Até hoje todas estão na Casa do Zezinho.
Qual foi a cena mais punk de violência que você viu?
Foi uma família. O irmão estava no tráfico, ficou devendo e deu no pé… Os caras estupraram a mãe, quatro meninas, tudo assim: 8, 9, 10, 11 anos. Aí amarraram a mãe e mataram as quatro na frente dela. A outra violência que eu vejo é todo ano em janeiro: a enchente. Quatro crianças morreram este ano, porque o barraco estava dentro do córrego. A água subiu, as quatro presas dentro, trancadas, morreram todas. Tem uma hierarquia dentro da favela?
Tem as três classes. Classe A é quem tem alvenaria e dois andares. Classe B é quem tem laje. E classe C, que eles chamam de derrotados, é quem mora perto do rio e tem madeira.
Tem assalto dentro da favela?
Não. Assaltou morreu, filho.
Como a Casa do Zezinho se sustenta?
Hoje com parcerias, iniciativas privadas, empresas, pessoas físicas, são associados. Claro que a gente está sempre no vermelho, óbvio. Com uma maluca desta na direção [risos].
E as mulheres na favela, como são tratadas?
Lixo, capacho. Hoje em dia a favela tem mais a avó materna. A mãe tá sumindo porque trabalha, fica fora o dia todo. O pai então… Não tem valor familiar. As meninas sabem como evitar gravidez, mas não evitam porque querem uma família, é o projeto de vida delas.
E os filhos?
O primeiro lugar que essa criança vai é a escola, o seu primeiro valor social. E a professora ganha mal. O que você está querendo dessa criança? Eu não ponho a mão na cabeça de bandido, mas o buraco é muito mais embaixo. Grandes bandidos são o Maluf, Marcos Valério… Se quem tem dinheiro e poder investisse em educação, em coisas básicas para a formação desses meninos, tenho certeza de que a coisa seria diferente… Até esse molequinho que matou meu pai, matou para comprar droga.
Como foi isso?
Quando eu tinha uns 60 Zezinhos, aluguei um sítio em Itapecerica da Serra. Era legal porque levava eles no fim de semana para lá. Minha mãe já tinha morrido e meu pai morava no sítio comigo, meu marido e meu filho. Um dia, eu estava na Casa do Zezinho e recebi um telefonema: “Olha, acabaram de matar seu pai”. Aí balancei. Foi um menino que entrou para roubar e comprar drogas e meu pai reagiu e levou três tiros. Saímos do sítio, o menino foi preso e fiquei um mês afastada da Casa do Zezinho, me questionando. Até que uma criança me ligou: “Tia Dag, você está muito triste?”. “Tô, né? Meu pai morreu.” E ela falou: “Tudo bem, a gente manda matar”. Eu falei que não e me deu um insight: meu pai morreu defendendo o que ele acreditava, que era a família. Ele morreu em pé, eu também vou morrer em pé. Quando voltei parecia um trator morro abaixo. Me deu uma força enorme.
Você conheceu esse menino?
[Nega com a cabeça.]
E o futuro desse povo?
O futuro é agora. Tira os sonhos pra ver se você vive. Eu tenho os meus. Multiplicar a Casa do Zezinho, ter Casa do Zezinho no Brasil inteiro. Eu quero ir pra África, eu ainda tenho muitos sonhos, muitos.
De onde vem o nome Casa do Zezinho?
De Carlos Drummond de Andrade, de “E agora, José?”. Naquela época foi uma poesia muito forte. Porque brasileiro tem essa mania de Zé Mané, Zé Ninguém… Pera aí! Vamos fazer “E agora, José!” com ponto de exclamação. Começamos com uns 12 Zezinhos…
Você chama todo mundo de Zezinho?
Todo mundo é Zezinho, eu sou Zezinho… Virou uma filosofia. Ser Zezinho indica valores, conquistas, sonhar, respeito, comprometimento. A Casa do Zezinho não nasceu de um assistencialismo barato ou palavras que eu não suporto, como caridade, solidariedade. E sim pelo princípio do desenvolvimento humano, e dentro disso existem milhares de maneiras e ferramentas que a gente vai construindo junto com os Zezinhos.
Como é a dinâmica na Casa?
Pra começar, não tenho sala de aula, tenho espaço de aprendizagem. Cada grupo tem seu horário e grade, grupo A vai estar na padaria, grupo B no cabeleireiro, grupo C na informática, D, na aula de inglês.
Como assim padaria, cabeleireiro…?
Eu tenho 17 oficinas lá dentro. Tem estúdio de som, eles aprendem as técnicas, gravam CD. Já tenho Zezinho trabalhando em rádio, 40 Zezinhos na faculdade, Zezinho associado, trabalhando em multinacional, educador da Casa do Zezinho. E no fim de semana a casa é um pólo cultural, levo shows, teatro, cinema… Qual o grande problema aqui?
Olha, primeiro chama casa, não chama escola. Então é uma casa onde eles vão aprender e nós também. Veja o problema da prostituição. Com 10 anos já começa. Conheci uma menina dessa idade e fui falar com ela: “Você tá se prostituindo no Santo Antônio?”. “Tô, por quê?” “Quanto você ganha?” “Dez real. Por que, Tia Dag, você nunca pensou em ser puta não?”. Nessa hora, se eu viesse com um discurso moral, perdia essa menina. Então falei: “Olha, é o seguinte, eu nunca pensei, mas se eu fosse pensar ia ser puta em Brasília”. Olhei pra cima e pensei: “Me perdoe a pedagogia, dane-se o mundo”. Ela disse: “Puta em Brasília, o que que é isso?”. “Ah minha filha, puta em Brasília deve ser 3 mil por transa, mais um apartamento, mas você tem que falar duas línguas, ter duas faculdades, um corpo sarado… então, se te interessar, me procura. E virei as costas. Amargurada, angustiada, mas o que eu ia fazer? Três dias depois ela me procurou. “Tia Dag, quero ser puta em Brasília.” Você sabe o que essa menina é hoje? Último ano de odontologia. Quando nós duas conversamos a gente lembra dessa história, cara, é muito bom.
Isso é educar?
Educar, cara, é atrair, é seduzir, você só educa se você seduz. Esse é o princípio de educação mais básico que tem. É sedução. A partir da sedução é intervenção. Deu a intervenção é transformação. Isso é educação. O que que acontece? Os grupos se formam em gueto, então eu sou esse gueto da zona sul, eu sou gueto da zona leste, se cruzam e se matam. Perpetuam essa bendita história; por que um grupo de rap famoso não vai lá no governo se eles têm força pra isso? Por que eles, que têm força pra isso e mais, não vão lá e dizem: “Escuta, cadê meu cinema? Cadê meu hospital? Cadê meu posto de saúde? Cadê não sei o quê? Pera aí que eu vou botar na minha música e nós vamos falar pro mundo”? A mídia funciona, a única coisa que funciona neste país é mídia. Você acha que dá pra pensar numa rede das ONGs, numa espécie de conexão entre todas?
É um sonho que eu tenho há cinco anos. Mas elas não conseguem se comunicar. Porque tem ONG que está muito aquém. O que acontece com as ONGs hoje é que elas estão bebendo tudo da mesma fonte. Que sentido faz eu colocar a criança numa marcenaria, que eu tenho aqui, para ficar fazendo chaveirinho, 5000 chaveirinhos, o que vai acrescentar? Porque é uma produção e vai vender. E ele vai ganhar um tanto em cima da produção. Ele ganha mais assaltando, ou puxando carro, sei lá. Ou fazendo nada também, ele pode ter esse direito. Não é? Aqui tudo o que é vendido, quem faz são os oficineiros. A meta hoje na Casa do Zezinho é faculdade. Todos querem ir pra faculdade. Há dez anos eles não tinham esse sonho. E eu juntei tudo, de Zezinho a mãe de Zezinho.
E como é o trabalho com as mães?
O Zezinho é que traz: “Minha mãe quer entrar num curso de informática”. Se a mãe quiser ela tem que ser apresentada pelo filho. E aí trata-se de uma briga maior. Muito maior, porque os problemas e traumas são muito mais enraizados. Então quebrar esses vínculos é muito difícil. Em primeiro lugar muitas delas estão alcoolizadas. Você tem que resgatar também a auto-estima, o que é mais importante, né, a identidade. Se você não tiver identidade, cara, você não faz nada.
Como sensibilizar o empresário?
Olha, me desculpa a franqueza, mas as camadas mais ricas só estão se mexendo agora porque a água tá batendo na bunda, entendeu? Tão com medo de ser assaltadas, seqüestradas, filhos roubados. Por isso tá todo mundo começando a acordar. Porque até então tava muito bom. Quando os pobrinhos estavam quietos, tava tudo bem: “Fica quieto aí, seu pobre, não se mexe!”. Só que agora os pobres estão se mexendo, meu amigo. E de forma violenta e organizada. É isso que a sociedade não percebeu.
Você é vaidosa?
Os meninos falam assim: “Tia Dag, por que você nunca está na moda?”. E eu falo: “Pera aí, o que é moda? Eu sou eu, tenho um estilo”. E eles: “É mesmo, né? Você é forte”. Eu nunca me pintei, nunca fiz a unha, não passo creme. Não uso jóias, salto alto, saia. Gosto de perfume, claro. E tinjo o cabelo para não ficar com a cabeça toda branca, mas não mudo a cor. Minha grande vaidade é essa busca por uma pedagogia de educação.
Como é a sua remuneração?
Minha remuneração é um aviãozinho, uma pomba de lata, coisas que as crianças fazem para mim. É todo o afeto, o sonhar juntos.
O que você gostaria de comprar?
Material de construção para fazer um galpão na Casa do Zezinho. Quero comprar todos os softwares modernos para pôr lá… Quero mais skypes, porque só tenho quatro ou cinco aqui.
Você tem alguma esperança no Estado?
Bolsa-família, bolsa-escola, bolsa-leite, bolsa-não-sei-o-quê. Uma mãe chegou pra mim: “Aí, eu ganhei um vale-transporte, bolsa-transporte, sei lá o que, pro meu filho estudar no Valo Velho”. Eu: “Caramba, o Valo Velho é a oito quilômetros daqui! A senhora tá contente porque ganhou um vale-transporte?”. E ela: “É claro! Ele vai estudar lá no Valo Velho”. E eu insisti: “A senhora tem é que brigar por escola perto da sua casa”. Sabe qual é a renda mínima aqui? Quanto é a nossa média? De 25 reais a 70 reais por mês. Quem é que vive com 70 reais por mês, cara?
Escritor e um dos principais desenhista de histórias em quadrinhos underground no Brasil, iniciou sua produção por meio dos fanzines Over-12 e Solúvel, na década de 80. Recebeu vários prêmios e é aclamado por sua participação no cinema e teatro. Criou a arte do filme “Nina”, dirigido por Heitor Dhalia, e escreveu o romance “O Cheiro do Ralo”, adaptado para o cinema e estrelado por Selton Mello. Recentemente, seu romance “O Natimorto” foi adaptado para o teatro pelo dramaturgo Mário Bortolotto.
Atualmente tem 9 livros de quadrinhos publicados e 4 romances.
Lourenço Mutarelli lançou nessa terça, dia 23 de julho de 2008, seu novo livro ”A Arte de Produzir Efeito Sem Causa”, em São Paulo. A obra conta a história de um homem que aos 43 anos volta para a casa do pai, depois de abandonar o emprego e o casamento. Lá, se vê arrastado por um vazio existencial que o faz transitar entre a sanidade e a loucura.
Esse é seu 4º romance. O primeiro, lançado em 2002, é o aclamado “O Cheiro do Ralo”.
Um dos principais músicos brasileiros, Chico César tem 8 discos lançados.
Em 2003, criou seu próprio selo o “Chita Discos”, que lançou duas trilhas sonoras compostas por Chico César para as peças infantis “Marias do Brasil” e “Amídalas”.
Em 2006 estreou como escritor com o livro Cantáteis – Cantos elegíacos de amozade.